Crítica: “Não Sei Viver Sem Palavras” celebra jornalismo e literatura

O documentário “Não Sei Viver Sem Palavras” apresenta um retrato intimista da trajetória do escritor Ignácio de Loyola Brandão. A produção, dirigida por seu filho, o fotógrafo e cineasta André Brandão, foi lançada na véspera do aniversário de 90 anos do imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL).
Ao percorrer as nove décadas de vida do autor, o filme também narra passagens da literatura brasileira contemporânea. O ator Gabriel Braga Nunes empresta a voz aos textos de Loyola em uma narração que combina tom documental e poético.
Registro cotidiano e memória
O longa partiu de registros feitos durante a pandemia e mostra a rotina familiar do escritor, além de lugares que marcaram sua formação, como a estação de trem de Araraquara e a Praça Roosevelt, em São Paulo. Ignácio Loyola Lopes Brandão faz relatos sobre a pronúncia correta de seu nome, Inácio, e sobre a mudança para a capital paulista, quando a cidade tinha 400 cinemas, teatros e livrarias. Na época, sair da cidade natal significava ir ao encontro da vida.
O documentário conecta o passado ao citar personagens da história, como Frei Betto. Fotos e documentos guardados pelo próprio autor dão ao filme um caráter de registro histórico. A trilha sonora instrumental e os efeitos sonoros reforçam momentos que alternam poesia e tensão.
Passagem pelo jornal Última Hora
Um dos pontos altos é a reconstituição da passagem de Loyola pelo jornal “Última Hora”. Foi lá que o autor conheceu o cotidiano paulistano que inspirou seus livros. O escritor relembra entrevistas com estudantes e sindicalistas e mostra como o contexto político da época deu origem à geração literária dos anos 1970.
O filme também aborda a censura durante a Ditadura Militar. Loyola conta que sua mesa na redação ficava ao lado da mesa do censor e que uma simples crítica de cinema poderia causar problemas.
Desafios pessoais
No final, o autor fala sobre a descoberta de um aneurisma cerebral em 1996. Para ilustrar o drama, o diretor usa a imagem de um vulcão em erupção, representando a metáfora de ter uma “granada na cabeça”. A iminência do risco cirúrgico e as reflexões sobre a morte ganham contraste diante da celebração dos 90 anos, mostrando que o aneurisma foi mais um desafio superado.
O filme é uma homenagem a Ignácio de Loyola Brandão e se destaca ao detalhar o período de resistência à ditadura militar. Apesar de o final ter um ritmo acelerado, o documentário mantém sua essência. As referências atendem a quem já conhece a carreira do escritor, mas também despertam a curiosidade de novos espectadores. As cenas finais, com o autor fazendo lives na internet, mostram a conexão com as novas gerações.
“Escrever não é uma coisa rígida, são vários momentos. Não há agonia em escrever, apenas transmite-se a agonia.”
Ficha Técnica:
Direção: André Brandão
Produtores: Felipe Soutello, Luana Furquim, André Brandão
Produtora Associada: Deborah Osborn
Roteiro: André Brandão, André Meirelles Collazzo, Vivian Brito, Ricardo Carioba
Direção de Fotografia: André Brandão
Trilha Sonora: Gabriel Ferreira
Elenco: Ignácio de Loyola Brandão
Distribuição: Bretz Filmes