Jogo indie Schrödinger’s Call questiona nossa identidade

O jogo indie Schrödinger's Call, lançado em maio de 2026 pela desenvolvedora japonesa Acrobatic Chirimenjako, tem chamado a atenção da crítica especializada. Com notas 89 no Metacritic e 92 no OpenCritic, o título não aposta em gráficos avançados, mas em uma narrativa que questiona a identidade humana.
Na história, o jogador controla Mary, uma garota presa entre a vida e a morte em um quarto vitoriano. Ela atende ligações telefônicas de pessoas que enfrentam o apocalipse. A premissa é que, após o anúncio do fim do mundo, todos ficam em um estado entre vivo e morto por 21 nanossegundos. Mary é a voz do outro lado da linha para essas pessoas.
Ela não vê quem está falando. Apenas ouve. No notebook de Mary, cada pessoa aparece como um animal antropomórfico que ela desenha enquanto escuta. A percepção visual dos personagens é filtrada pela imaginação dela.
O jogo é uma visual novel, um gênero focado em narrativa, com leitura de texto, arte estática e escolhas que afetam a história. Em Schrödinger's Call, as escolhas durante as ligações mudam a forma como a pessoa se vê.
A obra se baseia na ideia de que a identidade não é fixa, mas construída através de interações e linguagem. Quando Mary pergunta "como você quer ser lembrado?", ela não busca uma essência, mas participa de um ato de criação. O diálogo funciona como um espelho duplo, onde a identidade é negociada continuamente.
O jogo sugere que não é preciso ter uma resposta correta sobre quem se é, apenas estar disposto a conversar sobre isso. Mary nunca sabe a idade, raça ou gênero das pessoas. Tudo que ela conhece vem da voz e das palavras.
Atmosfera e ritmo
Os visuais são simples, com Mary em uma cadeira, um telefone e seu notebook. A arte muda com colagens e sobreposições que alteram o tom da cena. O som usa silêncios e tons que amplificam o texto, criando uma experiência próxima a uma peça teatral.
O ritmo do jogo é lento e deliberado. Ele força o jogador a desacelerar e realmente escutar as nuances de uma voz. A empatia é tratada como uma ferramenta para entender, não para sentir. O jogo não pede para concordar ou salvar os personagens, apenas para compreendê-los.
Schrödinger's Call aborda a questão da autenticidade em um momento em que redes sociais e inteligência artificial confundem o que é real e o que é construído. O jogo se destaca por tocar em temas atuais sem usar efeitos visuais ou mecânicas complexas.