The Westies: série policial imperdível do ano

Poucos diretores conseguiram transformar histórias de criminosos com tanta humanidade como Martin Scorsese. Clássicos, como “Os Bons Companheiros”, marcaram o cinema porque nunca falaram apenas sobre máfia, mas sobre ambição, ganância, lealdade, família e a inevitável decadência daqueles que vivem à margem da lei. É impossível assistir a “The Westies” sem perceber o quanto a nova produção da MGM+ bebe dessa fonte.
A série abraça sem vergonha todas as convenções dos grandes dramas policiais. Em vez de tentar reinventar a roda, mergulha em uma Hell’s Kitchen decadente, violenta e tomada por disputas territoriais, corrupção e interesses políticos. A diferença está no foco: enquanto a maioria das produções escolhe acompanhar a máfia italiana, aqui os protagonistas são os Westies, uma pequena, mas extremamente violenta gangue irlandesa que realmente existiu e aterrorizou Nova York entre as décadas de 1960 e 1980.
Embora utilize diversos elementos históricos como base, a narrativa assume um caminho bastante ficcionalizado. Isso, porém, nunca se torna um problema. A série utiliza esse contexto apenas como ponto de partida para construir uma trama envolvente sobre poder, sobrevivência e traição, criando uma história que prende do início ao fim.
Um dos pontos principais para assistir a “The Westies” é a atuação de J.K. Simmons. Seu “Eamon Sweeney” rapidamente se torna o centro gravitacional da série. O mais interessante é que Simmons constrói um chefão completamente diferente do estereótipo explosivo tão comum nas histórias de máfia. Seu poder não nasce dos gritos ou da violência descontrolada, mas da calma. Quanto mais sereno parece, mais perigoso se torna.
Felizmente, Simmons não carrega a produção sozinho. Tom Brittney convence como “Jimmy Roarke”, um homem dividido entre a lealdade ao mentor e a crescente percepção de que talvez esteja seguindo alguém disposto a ultrapassar qualquer limite. Ao seu lado, Sarah Bolger vive “Bridget” com bastante personalidade. Outro grande destaque é Titus Welliver, que interpreta “Glenn Keenan”, um policial corrupto preso entre dois mundos. Já Hamish Allan-Headley entrega uma versão interessante de John Gotti, fugindo da caricatura habitual para apresentar um mafioso frio, calculista e perigosamente ambicioso.
Além das atuações, chama atenção o cuidado dedicado à reconstrução da Nova York dos anos 80. As ruas molhadas, os bares esfumaçados, os figurinos, os carros antigos e a fotografia ajudam a criar uma ambientação que vai muito além do simples pano de fundo. A cidade se transforma em um personagem vivo. Até mesmo a sequência de abertura, acompanhada por uma música do Dropkick Murphys, reforça a identidade da série.
“The Westies” fica um passo atrás dos grandes clássicos do gênero por causa de pouco impacto emocional. A violência está presente o tempo inteiro, mas, conforme a história avança, esses acontecimentos começam a perder força porque quase todos os personagens compartilham o mesmo universo moralmente corrompido. Raramente desenvolvemos uma conexão emocional profunda com eles. Isso não compromete a qualidade da produção, mas impede que ela alcance o mesmo nível de impacto de algumas das maiores obras do gênero.
Sem dúvida, vale a pena assistir. “The Westies” não revoluciona os dramas de máfia, mas também nunca demonstra interesse em fazer isso. A série quer contar uma boa história utilizando personagens interessantes, um elenco excelente e uma ambientação extremamente convincente. Quem procura uma série repleta de tensão, violência, diálogos afiados e ótimas atuações encontrará aqui uma das melhores produções policiais do ano. “The Westies” está disponível na MGM+.